sexta-feira, 22 de julho de 2011

Uma lágrima

O homem triste
Derrubava uma lágrima
Pela lástima
Em que sua alma consiste

O vazio da ausência
De uma essência
Seu descontentamento
Expressado em lamento

Uma profunda carência
Justificada em demência
A sincera necessidade
De uma única verdade

Esse mar de mentiras
Tornaria o rosto triste
Permanente

Vulnerável

Feche as janelas.
Para que o vento
Não apaque as velas

Morte

Meu último pouso
Queda livre
Meu repouso

Meretriz

Sou paga
Sem beijos
A culpa se apaga

Prioridades

Feijão com Arroz
O bife
Para depois

Retrato

Amarelado
Pelo tempo
Um sorriso ensaiado

Solidão

O sol ainda aquece
O que o abraço
Se esquece

Mudar o mundo



Jonas estava frustrado, riscou um fósforo e acendeu uma vela.
Era seu aniversario o quadragésimo, isso não o empolgava mais, afinal cada aniversario significava que estava ficando mais velho, isso era depressivo. Ele sempre ansiou fazer algo notável, admirável e grandioso, assim seu nome ecoaria pela eternidade nas lembranças da posteridade, mas isso não havia acontecido ainda.
            Quarenta anos, isso o irritava amargamente, aos 33 Jesus havia mobilizado milhares de pessoas para um ideal aparentemente ilógico, provocou Roma, os poderosos fariseus e morreu como mártir, sendo até hoje homenageado e cultuado, enquanto Jonas não havia convencido nem o filho a ser homem.
            Tentou se consolar, o exemplo de Jesus era pesado, afinal era dotado de milagres, logo lembrou de Alexandre, O Grande, o exemplo era destrutivo, aos 19 anos era chefe do exército macedônico, aos 32 havia conquistado quase todo o mundo conhecido na época, era idolatrado por seus homens e até nos tempos atuais a cultura helênica mantém seus vestígios evidentes na sociedade. Bem, já Jonas com muito custo conquistou sua mulher que agora era ex-mulher, a batalha se desenrolava sim, nos tribunais com pedidos de pensão.
Sentou, começou a pensar em uma possível oportunidade de tornar a sua existência em algo incrível, talvez não fosse necessário abalar os pilares da sociedade para realmente valer a pena e de tanto pensar no assunto começou a perceber que o seu desejo de fazer algo notável não era nada altruísta, estava mais preocupado com a fama e repercussão do que com o próprio feito, questionou em segredo se os notáveis homens da história queria ser notáveis ou o eram apenas pelas ações inconscientes impulsionadas pela desejo sincero de fazer o que tinha de ser feito, mas isso soava predestinação.
Ficou atordoado com o raciocínio, Jonas pegou o violão, ensaiou alguns acordes, como um estalo na cabeça lembrou de Mozart. Mozart aos 4 anos tocava cravo, aos 12 compôs sua primeira ópera, aos 13 foi nomeado violino-mestre e aos 17 era considerado veterano e lecionava, enquanto Jonas não conseguia nem fazer direito a porcaria da pestana no violão, Mozart não tinha necessidade de ser genial, e foi porque era, simplesmente incrível.
Estranho, intrigante, pessoas incríveis nasciam incríveis ou se tornavam incríveis ? Apesar que, talvez fosse possível que nenhuma pessoa fosse incrível, pois heróis eram heróis porque alguém atribuiu este valor a eles, um valor dado ou depositado por pessoas anônimas, Cristo, Alexandre, Buda, Maomé, Napoleão, Bismark, Hitler e tantos outros só foram o que foram porque pessoas os elevaram e acreditaram neles, sem desmerecer a genialidade de nenhuma desses, as circunstâncias foram essenciais. Besteira, tudo uma bobeira, Jonas estava querendo justificar sua inércia, mas tinha um pouco de lógica, nenhum general ganhava batalhas sozinho, soldados os heróis anônimos, que mesmo assim só puderam contar suas história de vencedores porque uma mente genial os guiou ao triunfo.
Como explicar a genialidade de Aristóteles, Platão, Plínio, Kant, Hegel, Michelangelo, Da Vinci, Donatelo, Bocaccio, Camões, Rosseau, Voltaire e a enorme lista que segue, embora todos correspondessem apenas as correntes de pensamentos vigentes, seus parênteses sublinharam a história.
Jonas parou diante da sua janela, sentiu uma profunda amargura, ninguém era genial, eram apenas mais sensíveis, outros mais esforçados, dedicados, abnegados e embora um nome o intrigasse mais que todos, Mozart. Abaixou a cabeça e ficou triste, o que não se pode crer, descremos, creditando ao arquivo de lendas. Jonas fez assim, e acabou por descrer na sua capacidade de fazer algo genial. Ao encanto de Mozart que genial como foi encantou sem nada destruir.
Fugiu dos pensamentos, Jonas chegou a conclusão de que devia fazer o que devia ser feito, saiu da casa e mandou as máquinas voltarem ao serviço. Era dono de uma das maiores madeireiras instalada na Amazônia, entendeu que já estava fazendo muito para mudar o rumo da humanidade, não da forma como idealizou, mas do jeito que devia ser feito.  


terça-feira, 19 de julho de 2011

Cadeia Alimentar

           Uma minhoca rastejava pelo chão quando um pássaro faminto a comeu, o passáro saciado, nao notou que era presa fácil para o gato ali perto, o gato faminto comeu o pássaro pra matar a sua fome, o gato saciado foi pego de surpresa por um falcão faminto, que saciou sua fome com sua habilidade surpreendente de caça.

          O falcão alimentado voava de volta para casa, quando repentinamente um estrondo suspendeu sua vida ao ar, e caiu como um animal sem asas.

          Era um homem com uma arma.
          Que nao tinha o que fazer e resolveu saciar o seu tédio.

Migalhas e Folhas



Estava mais para as migalhas do que o banquete disposto à mesa, eram nas diversidades que se davam e compunham um todo repleto de sinais invisíveis aos olhos deslumbrados com o farto.
            Sempre lhe atraiu mais a timidez do quase secreto, o andar do bêbado, as conversas descontraídas de uma quarta-feira ociosa, a chuva caindo, a dança improvisada, a falta da lua, o olhar magnetizado que ignora o ritmo, perde a compostura. Um beijo pouco vale perto de um olhar. Talvez um beijo possa ser esquecido, um olhar pode intrigar por semanas seguidas, composta por segundos lerdos, nos levando para uma correnteza na qual não desejamos caminho nenhum senão o que já estamos.
            Estava disposto a doar o coração sem conservar o fígado, desprevenido diante das desventuras, beberia do gosto amargo da decepção incontáveis vezes, preço pago pelo vício que nos domina depois de acertar a primeira vez.
            Não se esquece o primeiro amor, paixão nos rouba e abandona em velocidades iguais, chama em vela apagada ao sopro. Amor não passa, não fica e a superação dele só se dá na comprovação de que ele não houve.
            Sorria para o espelho, criava poemas de poesias com caneta de ponta fina ao som de Beirut, tinha passos rápidos, coração lento e um desejo intenso de estar em todos e em todo lugar, por vezes se encontrava recostado em um canto observando as pessoas, adivinhando pensamentos e rindo da diversidade. Desafiava-se a fazer coisas que discordaria e de pensar ao contrário do que pensaria, regalias de uma mente confusa que lhe permite brincar de erros e acertos.
            Estava ali com o seu esboço todo rabiscado, folhas em branco para serem preenchidas, tinta de sangue, tinta de vida e tudo que fosse feito não poderia ser apagado, é a vida, não há tempo para passar a limpo.

Entrelinhas



Respirava fundo, tragando o ar em uma espécie rara de satisfação, sentiu-se expectador de toda a sua realidade. Mesmo que confusa, ainda era a sua, não havia subterfúgio, não havia atalhos, as coisas se davam em ritmos e conseqüências na velocidade violenta do tempo.
Valorizava aquela sensação, estava atordoado e não sabia qual caminho tomar, lhe pertenciam apenas os pés e os passos. O resto estava reservado aos segredos do imprevisível, as expectativas estavam sobre a mesa, as apostas, uma espécie de fé cega sussurra que a tentativa é válida mesmo quando o êxito é incerto.
Estava consciente da parte de si que permitiria se ausentar, escolhas necessárias para não haver autoflagelação, coisas necessárias tomadas por apenas uma parte da alma, a outra certamente fugiria alegando a tolice reincidente. Há entrelinhas da vida que só se lê de olhos fechados.
 Queria pertencer a tudo que ainda lhe escapava, desconhecidos e desaparecidos, o mundo presente em cada sonho, o absurdo e os excessos, queria despertar os desejos e até mesmo a rejeição, nada teria valor se não fosse na intensidade do momento em que se explode, sempre algo iria lhe escapar para roubar a plenitude, talvez fosse assim melhor, a plenitude também deixa escapar, na maioria das vezes os pequenos detalhes.
Estava fadado a sempre estar apaixonado pelo mundo eclodindo, da erupção vulcânica, da quebra da partícula atômica, atraído pelo confusão, distraindo eternamente o olhar para a dúvida, a certeza lhe escapava.

Ultimo Beijo



            Um doce encanto a tornava inesquecível naquela noite, estava bela como nunca, trazendo com ela um resquício de sorriso em seu semblante.
            Sua pele branca como neve, seus olhos com lápis preto e a delicada boca com um destacado batom vermelho flamejante, cabelos negros compridos descansavam em suas costas. Estava serena e calma pela primeira vez, um quadro sem molduras se tornava cada vez mais marcante na memória, ela ali em seu canto iluminado enquanto ele assistia tudo de longe sem poder desgrudar os olhos, sem capacidade de ser tornar independente de tudo o que acontecia naquela noite... ela estava maravilhosa.
            Sentia algo estranho incomodar, sensações estranhas e um coração palpitante, inquieto, sentindo uma necessidade de correr inconsequentemente, mas aquela era a noite dela, ele estava ali para entender tudo aquilo. Tudo tinha um ar de despedida que consequentemente lhe causava saudade. Naquela noite ele havia lhe trazido flores, belas, capazes de iluminar um jardim e adornar o opaco, porém não eram mais flores românticas. Não teve coragem de entrega-las, reprimindo seu desejo de expor todo o seu sentimento construído em episódios românticos, os quais envolveram tanto ele quanto ela em uma jornada de auto conhecimento, exalavam paixão, a química perfeita... no entanto agora tudo havia acabado repentinamente... ela estava maravilhosa.
            Reuniu todas as suas forças e aos poucos se aproximou dela, colocou uma de suas mãos juntas as delas. Ela não abriu os olhos, nem mesmo suspirou. Deu-lhe o ultimo beijo e se despediu.

Poesia do encanto


            No ritmo da dança
           
Tal como poesia que vive,
Voa, na velocidade do pensamento,
Divaga com o simples descanso das pálpebras,
Passeando pelos confins floridos dos sonhos,
A vida um sonho.

            Um doce descanso para o peito aflito
Afaga-se no conforto de um coração
Que encontrou o abraço que o aquece,
Lagrimas e risos,
Lagrimas parecendo ser a extensão da felicidade,

Como chorar de rir,
Pela constante alegria que impulsiona o corpo para correr,
Para destino nenhum,
Comemorando triunfante,
Por criar dentro de si, o amor.
           
Na canção romântica canta,
No ritmo, dança, rindo como criança
No silencio, murmura,
Como se orasse
Pedindo, o pra sempre.